Como escreve Achille Mbembe, é parte do trabalho de construção dos mitos da modernidade: a sua capacidade de atenuar o máximo possível, também na Cidade do Anjo, a presença latente da produção de sub-humanidades, da usurpação do direito à vida – o trabalho semiescravo de crianças, a exploração sexual de meninas e meninos; as violências infligidas, a fome -, num esforço em tornar quase impossível qualquer verdadeira interrogação acerca dos fundamentos desse nosso sistema de organização da vida, do seu âmago e das suas mitologias e ideologias, sem as quais a ordem que assegura a sua reprodução vacila de imediato.
A menina tinha o rosto meio que desfigurado. As ruas eram escuras. Por ali, as luzes não clareiam como acontece no centro da cidade. Nem todas funcionam. Apenas mais de perto percebi sua fisionomia triste e suas roupas em trapos. Imaginei que não tinha mais do que treze ou quatorze anos. Parou em minha frente e ofereceu, com fala difícil, seu corpo em troca de dez reais. Dez reais, na época, era o preço de uma ou duas pedras de crack.
“Prostituição infantil é crime que nem Deus perdoa”, escreve Paulina Chiziane em O Sétimo Juramento. Mas na Cidade do Anjo é um negócio lucrativo*, crescente e permitido por toda a comunidade. Do contrário, penso eu, não haveria. Tanto ali, como no romance de Paulina, “os que pregoam a moral nada fazem para modificar as coisas” (2000: 119), e a hipocrisia continua sendo mais um trunfo das coisas como estão.
Os lugares onde o culto a Deus não está em fazer justiça, mas sim em seguir, sem refletir, as catequeses do cotidiano – as missas, aos domingos – permanecem cheios e frequentados também por aqueles políticos denunciados pelo Ministério Público por enriquecimento ilícito e outras facetas da corrupção: ele é uma pessoa boa, dizem os iludidos pelo homem que reza e agradece a deus. E diante da violência expressa em vandalismos, assaltos ao comércio e aos lares do centro da cidade que surpreende os mais desatentos, os cidadãos de bem se juntam para relinchar em tribuna da casa de leis frases prontas das mídias, jornais, redes sociais em um discurso marcado por essa capacidade intrínseca à consciência moderna em opinar, dizer, afirmar, com a veemência da certeza, sobre aquilo que nada ou muito pouco se sabe. Um conhecimento, em especial, quando o assunto é a própria realidade em que vivem, movidos e movidas que estão pelos olhares fixos e enfeitiçados pelas belezas, linhas, contornos, profundidades e saliências do próprio umbigo.
“A ‘política da diferença’ ou do ‘Bom Samaritano’, que se alimenta do sentimento de culpa, ou de ressentimento, ou de piedade, mas nunca da justiça ou da responsabilidade” (Mbembe, 2014: 94), aliada à indignação sem conteúdo e direcionada tal qual um cavalo a puxar uma charrete, guia as atitudes e discursos de uma parcela no mínimo ingênua ou estúpida, para não citar outros adjetivos, da nossa comunidade. Parcela essa que, respeitada por motivos também não tão racionais, consegue influenciar decisões políticas dos não menos estúpidos (ingenuidade aqui não existe), salvo raras e benditas exceções, ocupantes dos cargos públicos.
A violência da ignorância ganha assim os seus contornos. Uma violência que, por ali, com os pronunciamentos da oposição partidária, dos autoproclamados cidadãos de bem, da situação política, se ampliam os números de câmeras de vigilância nas ruas, de repressão policial, de tentativa de controle, em um ciclo crescente e sem fim existente há tempos, na ilusão ou na hipocrisia de que estão agindo em favor da segurança pública. Enquanto tal, em um lugar distante, em um bairro rural e afastado dos nossos cidadãos modelo, um menino, quase uma criança, mata, no meio de uma das ruas de sua pequena comunidade, um dos tantos cachorros abandonados e cheios de doenças e feridas abertas para comer a sua carne e os seus órgãos ali mesmo, em meio ao movimento pacato do que seria um bairro tranquilo. Algo que permanece invisível, ou quando não, naturalizado pelos olhos e sentidos da boa-fé. E menos importante que o vandalismo em um monumento público ou religioso, o trabalho infanto-juvenil semiescravo promovido nas fazendas daqueles cidadãos bajulados por esses senhores e senhoras de bem, também passa por esses frutíferos debates completamente despercebido.
Num lugar em que, me aproveitando mais uma vez das palavras de Paulina Chiziane, “a usurpação do direito à vida está em voga” (2005: 69), a construída banalização da crueldade torna aceitável e costumeira a degradação da vida que quer viver, e a indignação diante do exposto e a esperança, mesmo que concreta, por uma outra cidade possível, se transformam nas mentes conformistas em privilégios inalcançáveis dos loucos e ingênuos.

Tiago Mi
Diretor de Estética, Sentido e Política do OPOCA. Doutor pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e Mestre em Ciências com foco em Pensamento Crítico Latino-americano pela Universidade de São Paulo (USP). Foi pesquisador docente da Universidade Internacional de Periferias – UNIperiferias (IMJA, Rio de Janeiro) e tutor no curso internacional Epistemologias do Sul realizado pelo Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) e pelo CES. É pesquisador convidado do Projeto de Pesquisa sobre Estéticas Periféricas – Permaré – da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Portugal e é Vice-presidente do Instituto Biocultural Homo Serviens em Florianópolis, Santa Catarina.
Referências
Texto extraído e adaptado da tese de doutorado A Vida Deles e Deles, a nossa, Na Cidade do Anjo: uma utopia crítica pós-colonial das gentes do cotidiano, de Tiago Miguel Knob e desenvolvida no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal a partir e com as nossas lutas em São Miguel Arcanjo, SP, Brasil. Para ler, vá em Publicações
*A exploração sexual infantojuvenil não atinge apenas as meninas e meninos que vendem os seus corpos em troca do vício. Ela é um negócio lucrativo para os negociantes de corpos jovens espalhados por diversos bairros de nossa cidade.
Chiziane, Paulina (2000). O Sétimo Juramento. Lisboa : Caminho.
Mbembe, Achille (2017). Políticas da Inimizade. Trad. Marta Lança, Lisboa : Antígona.

