{"id":2749,"date":"2026-07-26T15:20:04","date_gmt":"2026-07-26T15:20:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/?p=2749"},"modified":"2026-07-26T15:36:48","modified_gmt":"2026-07-26T15:36:48","slug":"a-violencia-da-ignorancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/a-violencia-da-ignorancia\/","title":{"rendered":"A Viol\u00eancia da Ignor\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Como escreve Achille Mbembe,<\/em> <em>\u00e9 parte do trabalho de constru\u00e7\u00e3o dos mitos da modernidade: a sua capacidade de atenuar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, tamb\u00e9m na Cidade do Anjo, a presen\u00e7a latente da produ\u00e7\u00e3o de sub-humanidades, da usurpa\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 vida &#8211; o trabalho semiescravo de crian\u00e7as, a explora\u00e7\u00e3o sexual de meninas e meninos; as viol\u00eancias infligidas, a fome -, num esfor\u00e7o em tornar quase imposs\u00edvel qualquer verdadeira interroga\u00e7\u00e3o acerca dos fundamentos desse nosso sistema de organiza\u00e7\u00e3o da vida, do seu \u00e2mago e das suas mitologias e ideologias, sem as quais a ordem que assegura a sua reprodu\u00e7\u00e3o vacila de imediato.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:50%\">\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A menina tinha o rosto meio que desfigurado. As ruas eram escuras. Por ali, as luzes n\u00e3o clareiam como acontece no centro da cidade. Nem todas funcionam. Apenas mais de perto percebi sua fisionomia triste e suas roupas em trapos. Imaginei que n\u00e3o tinha mais do que treze ou quatorze anos. Parou em minha frente e ofereceu, com fala dif\u00edcil, seu corpo em troca de dez reais. Dez reais, na \u00e9poca, era o pre\u00e7o de uma ou duas pedras de crack.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u201cProstitui\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 crime que nem Deus perdoa\u201d, escreve Paulina Chiziane em <em>O S\u00e9timo Juramento<\/em>. Mas na Cidade do Anjo \u00e9 um neg\u00f3cio lucrativo*, crescente e permitido por toda a comunidade. Do contr\u00e1rio, penso eu, n\u00e3o haveria. Tanto ali, como no romance de Paulina, \u201cos que pregoam a moral nada fazem para modificar as coisas\u201d (2000: 119), e a hipocrisia continua sendo mais um trunfo das coisas como est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Os lugares onde o culto a Deus n\u00e3o est\u00e1 em fazer justi\u00e7a, mas sim em seguir, sem refletir, as catequeses do cotidiano &#8211; as missas, aos domingos &#8211; permanecem cheios e frequentados tamb\u00e9m por aqueles pol\u00edticos denunciados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico por enriquecimento il\u00edcito e outras facetas da corrup\u00e7\u00e3o: <em>ele \u00e9 uma pessoa boa<\/em>, dizem os iludidos pelo homem que reza e agradece a deus. E diante da viol\u00eancia expressa em vandalismos, assaltos ao com\u00e9rcio e aos lares do centro da cidade que surpreende os mais desatentos, os cidad\u00e3os de bem se juntam para relinchar em tribuna da casa de leis frases prontas das m\u00eddias, jornais, redes sociais em um discurso marcado por essa capacidade intr\u00ednseca \u00e0 consci\u00eancia moderna em opinar, dizer, afirmar, com a veem\u00eancia da certeza, sobre aquilo que nada ou muito pouco se sabe. Um <em>conhecimento<\/em>, em especial, quando o assunto \u00e9 a pr\u00f3pria realidade em que vivem, movidos e movidas que est\u00e3o pelos olhares fixos e enfeiti\u00e7ados pelas belezas, linhas, contornos, profundidades e sali\u00eancias do pr\u00f3prio umbigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u201cA \u2018pol\u00edtica da diferen\u00e7a\u2019 ou do \u2018Bom Samaritano\u2019, que se alimenta do sentimento de culpa, ou de ressentimento, ou de piedade, mas nunca da justi\u00e7a ou da responsabilidade\u201d (Mbembe, 2014: 94), aliada \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o sem conte\u00fado e direcionada tal qual um cavalo a puxar uma charrete, guia as atitudes e discursos de uma parcela no m\u00ednimo ing\u00eanua ou est\u00fapida, para n\u00e3o citar outros adjetivos, da nossa comunidade. Parcela essa que, respeitada por motivos tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00e3o racionais, consegue influenciar decis\u00f5es pol\u00edticas dos n\u00e3o menos est\u00fapidos (ingenuidade aqui n\u00e3o existe), salvo raras e benditas exce\u00e7\u00f5es, ocupantes dos cargos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia da ignor\u00e2ncia ganha assim os seus contornos. Uma viol\u00eancia que, por ali, com os pronunciamentos da oposi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, dos <em>autoproclamados cidad\u00e3os de bem<\/em>, da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, se ampliam os n\u00fameros de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia nas ruas, de repress\u00e3o policial, de tentativa de controle, em um ciclo crescente e sem fim existente h\u00e1 tempos, na ilus\u00e3o ou na hipocrisia de que est\u00e3o agindo em favor da seguran\u00e7a p\u00fablica. Enquanto tal, em um lugar distante, em um bairro rural e afastado dos nossos cidad\u00e3os modelo, um menino, quase uma crian\u00e7a, mata, no meio de uma das ruas de sua pequena comunidade, um dos tantos cachorros abandonados e cheios de doen\u00e7as e feridas abertas para comer a sua carne e os seus \u00f3rg\u00e3os ali mesmo, em meio ao movimento pacato do que seria um bairro tranquilo. Algo que permanece invis\u00edvel, ou quando n\u00e3o, naturalizado pelos olhos e sentidos da boa-f\u00e9. E menos importante que o vandalismo em um monumento p\u00fablico ou religioso, o trabalho infanto-juvenil semiescravo promovido nas fazendas daqueles cidad\u00e3os bajulados por esses senhores e senhoras de bem, tamb\u00e9m passa por esses frut\u00edferos debates completamente despercebido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Num lugar em que, me aproveitando mais uma vez das palavras de Paulina Chiziane, \u201ca usurpa\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 vida est\u00e1 em voga\u201d (2005: 69), a constru\u00edda banaliza\u00e7\u00e3o da crueldade torna aceit\u00e1vel e costumeira a degrada\u00e7\u00e3o da vida que quer viver, e a indigna\u00e7\u00e3o diante do exposto e a esperan\u00e7a, mesmo que concreta, por uma outra cidade poss\u00edvel, se transformam nas mentes conformistas em privil\u00e9gios inalcan\u00e7\u00e1veis dos loucos e ing\u00eanuos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:18% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"812\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-812x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2761 size-full\" srcset=\"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-812x1024.jpg 812w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-238x300.jpg 238w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-768x968.jpg 768w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-1218x1536.jpg 1218w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-1624x2048.jpg 1624w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S-119x150.jpg 119w, https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_2161-S.jpg 2009w\" sizes=\"auto, (max-width: 812px) 100vw, 812px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tiago Mi<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diretor de Est\u00e9tica, Sentido e Pol\u00edtica do OPOCA. Doutor pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e Mestre em Ci\u00eancias com foco em Pensamento Cr\u00edtico Latino-americano pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Foi pesquisador docente da Universidade Internacional de Periferias &#8211; UNIperiferias (IMJA, Rio de Janeiro) e tutor no curso internacional Epistemologias do Sul realizado pelo Conselho Latino-americano de Ci\u00eancias Sociais (CLACSO) e pelo CES. \u00c9 pesquisador convidado do Projeto de Pesquisa sobre Est\u00e9ticas Perif\u00e9ricas &#8211; Permar\u00e9 &#8211; da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Portugal e \u00e9 Vice-presidente do Instituto Biocultural Homo Serviens em Florian\u00f3polis, Santa Catarina.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:50%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Texto extra\u00eddo e adaptado da tese de doutorado A Vida Deles e Deles, a nossa, Na Cidade do Anjo: uma utopia cr\u00edtica p\u00f3s-colonial das gentes do cotidiano, de Tiago Miguel Knob e desenvolvida no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal a partir e com as nossas lutas em S\u00e3o Miguel Arcanjo, SP, Brasil. Para ler, v\u00e1 em\u00a0<a href=\"https:\/\/opoca.org\/publicacoes\/\">Publica\u00e7\u00f5es<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>*A explora\u00e7\u00e3o sexual infantojuvenil n\u00e3o atinge apenas as meninas e meninos que vendem os seus corpos em troca do v\u00edcio. Ela \u00e9 um neg\u00f3cio lucrativo para os negociantes de corpos jovens espalhados por diversos bairros de nossa cidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Chiziane, Paulina (2000). O S\u00e9timo Juramento. Lisboa : Caminho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Mbembe, Achille (2017). Pol\u00edticas da Inimizade. Trad. Marta Lan\u00e7a, Lisboa : Ant\u00edgona.<\/em><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como escreve Achille Mbembe, \u00e9 parte do trabalho de constru\u00e7\u00e3o dos mitos da modernidade: a sua capacidade de atenuar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, tamb\u00e9m na Cidade do Anjo, a presen\u00e7a latente da produ\u00e7\u00e3o de sub-humanidades, da usurpa\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 vida &#8211; o trabalho semiescravo de crian\u00e7as, a explora\u00e7\u00e3o sexual de&#8230;<\/p>\n<p> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/a-violencia-da-ignorancia\/\"><span>Ler<\/span><i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a> <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2366,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[68,66,7],"tags":[],"class_list":["post-2749","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cursinho-popular-opoca","category-estudos-e-pesquisas","category-opoca"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbaoJh-Il","jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/IMG_3512-scaled.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2749"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2749\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2778,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2749\/revisions\/2778"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}