{"id":2387,"date":"2024-06-05T17:42:08","date_gmt":"2024-06-05T17:42:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/?p=2387"},"modified":"2024-11-01T19:20:10","modified_gmt":"2024-11-01T19:20:10","slug":"esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.opoca.org\/midialivre\/esperanca\/","title":{"rendered":"Pedagogia da utopia"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:50%\">\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong>: os momentos de uma pedagogia movida pela esperan\u00e7a<\/h1>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>A esperan\u00e7a fraudulenta \u00e9 uma das maiores malfeitoras, at\u00e9 mesmo um dos maiores tormentos do g\u00eanero humano, e a esperan\u00e7a concretamente aut\u00eantica, a sua mais s\u00e9ria benfeitora. Ernst Bloch.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A esperan\u00e7a corresponde \u00e0quele apetite da alma que as mulheres e os homens n\u00e3o s\u00f3 possuem, mas no qual consistem essencialmente como seres n\u00e3o-acabados. Ela \u00e9 esse&nbsp;<em>afeto&nbsp;<\/em>da espera contra a ang\u00fastia e o medo diante da vida e, por isso, o mais humano de todos os movimentos do \u00e2nimo e corresponde, ao mesmo tempo, ao mais universal e l\u00facido dos horizontes (Bloch, [1959] 2005: 77). E ela, a esperan\u00e7a, precisa ser nutrida de realidades, do real, da a\u00e7\u00e3o, dos saberes, poesias, de conhecimentos, da&nbsp;<em>pr\u00e1xis<\/em>, que \u00e9 para ir se tornando, enquanto nos move, cada vez mais fecunda.<\/p>\n\n\n\n<p>A utopia diante das viol\u00eancias da cidade de S\u00e3o Miguel Arcanjo, a Cidade do Anjo, precisa juntar \u00e0 esperan\u00e7a que nos suporta, a inser\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e profunda no cotidiano, que \u00e9 o que nos d\u00e1 concretude \u00e0 esperan\u00e7a e conte\u00fado ao pensar, e a constru\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a cognitiva, que \u00e9 o que nos torna capazes de fortalecer a utopia e&nbsp;<em>desenvolver&nbsp;<\/em>o&nbsp;<em>andar<\/em>. Um caminhar movido pelo&nbsp;<em>educar-se<\/em>, essa capacidade intr\u00ednseca do ser humano em ser, fazer e se refazer como humano e vivente no mundo enquanto caminha. S\u00e3o estes os momentos de uma pedagogia movida, portanto, pela esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o pensador, \u201ca utopia \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de novas possibilidades e vontades humanas, por via da oposi\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade do que existe, s\u00f3 porque existe, em nome de algo radicalmente melhor que a humanidade tem direito de desejar e porque merece a pena lutar\u201d (Santos, 2013: 280). Quase todas elas \u201cs\u00e3o cr\u00edticas impl\u00edcitas da civiliza\u00e7\u00e3o em que se enquadram e representam tamb\u00e9m uma tentativa de revelar potencialidades ignoradas pelas institui\u00e7\u00f5es em vigor ou soterradas debaixo de uma espessa crosta de costumes e tradi\u00e7\u00f5es\u201d (Mumford, [1922] 2007: 10); de mitos e farsas; de viol\u00eancias que ocultam as resist\u00eancias, as pot\u00eancias, as alternativas que sobrevivem apesar das ideologias que encobrem, escondem, impedem, maltratam. Como escreve Bloch, \u201ccomo nenhuma explora\u00e7\u00e3o deve se deixar ver nua, ideologia \u00e9,&nbsp;<em>por esse lado<\/em>, a soma das representa\u00e7\u00f5es em que cada sociedade se justificou e se transfigurou com o aux\u00edlio da m\u00e1 consci\u00eancia\u201d ([1959] 2005: 153).<\/p>\n\n\n\n<p>A utopia, portanto, \u00e9 cr\u00edtica porque n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua, nem imposs\u00edvel, nem ilus\u00f3ria. Vasculha o real. Desconstr\u00f3i, desmistifica, media as suas possibilidades. Assim como a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 fundamentada em uma espera vaga, pura, v\u00e3. A esperan\u00e7a, consciente, cr\u00edtica, \u00e9 um ato que n\u00e3o resigna, n\u00e3o teme, aprende a esperar: \u201ccolocada acima do ato de temer, n\u00e3o \u00e9 passiva como este, tampouco est\u00e1 trancafiada em um nada\u201d (Bloch, [1959] 2005: 13), ajustada \u00e0 espera da ordem, da morte. Ela sai de si mesma, escreve Bloch, e amplia as pessoas ao inv\u00e9s de estreit\u00e1-las; lan\u00e7a-as ativamente naquilo que elas v\u00e3o se tornando e do qual elas pr\u00f3prias fazem parte ([1959] 2005: 13) enquanto v\u00e3o mediando o real, sendo tamb\u00e9m mediadas por ele, construindo um caminhar em fun\u00e7\u00e3o de uma vida que fa\u00e7a sentido viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um&nbsp;<em>mundo que absolutamente n\u00e3o \u00e9 o nosso<\/em>, como mais ou menos disse certa vez Criolo, a esperan\u00e7a e a utopia s\u00e3o vitais: ou a gente imagina, sonha com uma esquina, uma rua, um bairro, uma cidade, um mundo em que a crian\u00e7a,&nbsp;<em>a gente<\/em>, possa viver e viver bem, e caminha para constru\u00ed-los \u2013 aprendendo a construir \u2013 ou permanecemos impedidos de&nbsp;<em>ser<\/em>. Diante do real, e nessa rela\u00e7\u00e3o direta entre estudo e vida,&nbsp;<em>pr\u00e1xis<\/em>, individual e coletivo,&nbsp;<em>educarse<\/em>, a utopia vai fortalecendo o seu sentido, a esperan\u00e7a a sua concretude e vice-versa. Como diz Paulo Freire,&nbsp;<em>precisamos da esperan\u00e7a cr\u00edtica como o peixe necessita da \u00e1gua despolu\u00edda<\/em>. Sobre a necessidade da&nbsp;<em>utopia cr\u00edtica<\/em>, acredito ser o mesmo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Pensar que a esperan\u00e7a sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade \u00e9 um modo excelente de tombar na desesperan\u00e7a, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperan\u00e7a na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, \u00e0 pura cientificidade, \u00e9 fr\u00edvola ilus\u00e3o. Prescindir da esperan\u00e7a que se funda tamb\u00e9m na verdade como na qualidade \u00e9tica da luta \u00e9 negar a ela um dos seus suportes fundamentais. O essencial [\u2026], \u00e9 que ela, enquanto necessidade ontol\u00f3gica, precisa de ancorar-se na pr\u00e1tica. Enquanto necessidade ontol\u00f3gica a esperan\u00e7a precisa da pr\u00e1tica para tornar-se concretude hist\u00f3rica. \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a na pura espera, nem tampouco se alcan\u00e7a o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera v\u00e3 (Freire, 2015: 15).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que importa, portanto, \u00e9 saber sempre mais sobre elas, sobre n\u00f3s e o real. Um saber capaz de manter a esperan\u00e7a e a utopia direcionadas de forma clara e sol\u00edcita (Bloch, [1959] 2005: 14). Trata-se, aqui, de uma pedagogia que permita a produ\u00e7\u00e3o de um saber capaz de ir enriquecendo a utopia e de ir fortalecendo a esperan\u00e7a enquanto caminham as pessoas,&nbsp;<em>as gentes&nbsp;<\/em>do cotidiano da cidade de S\u00e3o Miguel Arcanjo, a Cidade do Anjo, hoje e amanh\u00e3: \u201cuma compreens\u00e3o profunda da realidade \u00e9 essencial ao exerc\u00edcio da utopia, condi\u00e7\u00e3o para que a radicalidade da imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o colida com o seu realismo\u201d (Santos, 2013: 280) e para que a radicalidade da vontade n\u00e3o se manifeste em nenhum tipo de voluntarismo. Trata-se, enfim, nesse estudo, da&nbsp;<em>pr\u00e1xis&nbsp;<\/em>da nossa a\u00e7\u00e3o social em curso e de uma pedagogia que nos ajude nessa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>A Pedagogia da Utopia \u00e9 formada pelos conceitos <strong>Esperan\u00e7a<\/strong>,&nbsp;<strong>Educar-se<\/strong>,&nbsp;<strong>Justi\u00e7a Cognitiva<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>Concretude Hist\u00f3rica: Cotidiano<\/strong>. Acesse <a href=\"https:\/\/opoca.org\/pesquisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estudos e Pesquisas<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Bloch, Ernst (2005 [1959]).&nbsp;<em>O Princ\u00edpio Esperan\u00e7a<\/em>. Volume 1. Trad. N\u00e9lio Schneider. Rio de Janeiro : EdUERJ : Contraponto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Freire, Paulo (2015).&nbsp;<em>Pedagogia da Esperan\u00e7a: um reencontro com a pedagogia do oprimido<\/em>. 22\u00aa ed. \u2013 S\u00e3o Paulo : Paz e Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Guti\u00e9rrez, Francisco; Cruz, Prado (1999).&nbsp;<em>Ecopedagogia e cidadania planet\u00e1ria<\/em>. \u2013 S\u00e3o Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire.<em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Mumford, Lewis (2007 [1922]).&nbsp;<em>Hist\u00f3ria das Utopias<\/em>. Trad. Isabel Botto. Lisboa : Ant\u00edgona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Santos, Boaventura de Sousa (2013).&nbsp;<em>Pela m\u00e3o de Alice<\/em>. O social e o pol\u00edtico na p\u00f3smodernidade. Coimbra : Almedina.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como citar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Knob, Tiago Miguel (2018),&nbsp;<em>A Vida Delas e Deles, a Nossa, na Cidade do Anjo: uma utopia cr\u00edtica p\u00f3s-colonial das gentes do cotidiano<\/em>. Tese de doutoramento apresentada \u00e0 Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:25%\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o: os momentos de uma pedagogia movida pela esperan\u00e7a A esperan\u00e7a fraudulenta \u00e9 uma das maiores malfeitoras, at\u00e9 mesmo um dos maiores tormentos do g\u00eanero humano, e a esperan\u00e7a concretamente aut\u00eantica, a sua mais s\u00e9ria benfeitora. Ernst Bloch. 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